Palestrante
Descrição
A leishmaniose tegumentar (LT) é uma doença tropical negligenciada causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitida por flebotomíneos, e permanece endêmica em Minas Gerais, com incidência crescente desde 2014. Em várias comunidades rurais do Brasil, a úlcera clássica da LT é conhecida como “ferida brava”, expressão que evoca uma lesão percebida como “bárbara”, silvestre, desconhecida, indomável e de difícil cura, refletindo a forma como o adoecimento é interpretado por essas populações. Nesse contexto, os itinerários terapêuticos (ITs), entendidos como os caminhos percorridos pelos pacientes em busca de cuidado e cura, e que englobam os setores popular (tradições familiares), “folk” (práticas espirituais) e profissional, tornam-se fundamentais para compreender o atraso frequente na procura por assistência médica e suas repercussões clínicas e sociais. Objetivou-se analisar, por meio de revisão integrativa, os ITs de pacientes com LT em áreas rurais, identificando o papel dos saberes populares e das práticas espirituais no enfrentamento da doença e suas implicações para a prática clínica. Realizou-se busca nas bases PubMed, Scopus e SciELO, entre 2002 e 2025, com os descritores “cutaneous leishmaniasis”, “traditional medicine”, “therapeutic itinerary”, “spirituality”, “transcendent” e “Brazil”. Incluíram-se estudos sobre percepções populares, práticas tradicionais e ITs em áreas endêmicas, com síntese narrativa organizada em quatro eixos: representações sociais, influência da espiritualidade, práticas tradicionais e implicações clínicas. Os achados indicam que parte expressiva dos pacientes busca inicialmente curandeiros e benzedeiras por meses, o que posterga o diagnóstico e o início do tratamento profissional. Persistem crenças em causalidade sobrenatural, como “mau-olhado” e “castigo divino”, coexistindo com o reconhecimento parcial do vetor e da transmissão biológica. As práticas espirituais, embora ofereçam suporte emocional e simbólico, podem também produzir resignação diante da persistência da lesão. Observou-se ainda o uso de plantas medicinais sobre as úlceras, além de estigma, isolamento social e importante impacto psicossocial. Assim, reconhecer o saber popular e a dimensão espiritual no que tange à LT é essencial para a construção de estratégias culturalmente sensíveis, capazes de favorecer adesão terapêutica, diagnóstico precoce e atuação compartilhada com famílias e comunidades.
| Palavras-chave | Leishmaniose tegumentar; itinerário terapêutico; espiritualidade; saber popular. |
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